quarta-feira, 27 de maio de 2009

DEDICATÓRIA

Aqui estão pedaços de mim, fragmentos da minha alma, passagens de uma vida tolhida por mim mesmo. Dedico estes poemas a todos àqueles que os fizeram existir, àqueles que foram protagonistas desses relatos: os sonhos, o destino, a saudade, a alma, a solidão... Dedico aos meus amigos próximos e distantes que permeiam minha existência incontestável. À minha família que ainda me faz sonhar. E à grande inspiradora de tudo isso: Florbela Espanca, uma poetisa sem igual, que sem saber, relatou toda minha vida em seus poemas.


FERNANDO SALES

Bocas Desunidas



Não consigo ir nem voltar
Seguro as emoções dos acontecimentos
Como estações que se abrem para mim
Há um desespero agudo
Atrás de cada porta
Que suprime o passar dos segundos
Procuro uma forma diferente de morrer
Acabar com tudo que carrego em mim
Sentar-me-ei sobre a noite escura
Alma já não possuo
Palavras é o que me restam
E quando o fim chegar
De mim só restará a boca
Numa espera aterradora
Da ausência de teus beijos


Gildo Rêgo

Florbela Espanca


A Flor Mais Bela

à Florbela Espanca


Não existe Flor mais bela que Florbela
Exalando seu perfume com palavras
Seus espinhos são as rimas
Sua cor, o soneto

Sua origem é Portuguesa
E seu escudo, a poesia

A Flor mais bela
Sempre bela
Florbela

AS PAIXÕES

Amar!
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais este e aquele, o outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disse que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...
Florbela Espanca

Tarsila do Amaral (Capivari, 1 de setembro de 1886 — São Paulo, 17 de janeiro de 1973)

O ser que me compõe

Sinto amargamente a sua falta...
Busco incessantemente a tua presença...
Procuro insistentemente por você
De repente...
Te encontro dentro de mim
Compondo o meu ser
Alimentando o meu ego
Invadindo os meus pensamentos
Acalentando minha alma
As lembranças estão impregnadas de eternidade
Estou cansado de sentimentos repousados
Quero fazer reviver os meus sentidos
Vestir-me de mim mesmo
E nessa voluptuosa euforia
Ir ao encontro do ser que me compõe.

Avesso

Avesso


Amor...
Sentimento esdrúxulo que decepa as asas da gente
Consome o ser lentamente
Esfacelando todos os sentidos
Que o vento carrega em um leve sopro
Procuro por ti
Não te encontro
Estás ausente...
Devo seguir a minha estrela
O destino sempre me quis só
Dou voltas infinitas
Por caminhos obscuros e estreitos
Minha alma vive a vagar
No avesso de uma dor.

Poetar

à Irene Lima Marques


Quem me dera ser como o poema
Carregado de sentimentos
Transformador da palavra
Universal
Ir além do impossível

Quem me dera ser o poeta do pensar
Ser o poeta do sentir
Ser o outro

O que me resta
Recolher-me ao esconderijo
Dentro de mim mesmo
Um interior sarcástico
Abraçar a dor
Do poetar

Marc Chagall

Mãe

à minha mãe Luzinete


Na mão sensível, o afago materno acalenta a alma
Envolvido por uma serena calma
Tecendo o bem da alma
Eternamente é meu ser

Pablo Ruiz Picasso (Málaga, 25 de outubro de 1881 — Mougins, 8 de abril de 1973)


Pintor espanhol naturalizado francês. Considerado por muitos o maior artista do século 20, era também escultor, artista gráfico e ceramista.

Infância

As lembranças invadem a memória
Parece um mergulho no passado
A distância faz parte da história
Um fado já traçado

Envelhecer é uma visão notória
Carrega consigo um recado:
Não há nenhuma vitória
Somente um fracassado

Da janela vejo a infância perdida
Uma inocência adormecida
Que os anos não trazem mais

Que bom seria voltar a ser criança
Construir um mundo de esperança
Universalizar a paz

Vicent Van Gogh


Van Gogh é considerado um dos principais representantes da pintura mundial. Nasceu na Holanda, no dia 30 de março de 1853 edisparou um tiro na fronte em 29 de julho de 1890.

Afago à Ana

à Ana Maria César


Amizade Assoma do Amor
Amável Amiga Alegre
Anjo de Asas Alçadas
Auspiciosa Arquiteta da Aliteração
Alma Abrasileirada
Acalentada Assiduamente
Ainda Adornada de Alegria
Amabilidade Aflorando
Acalentando o Âmago Alheio
Assim Abençoada Avivarás

Peter Paul Rubens (Siegen, 28 de Junho de 1577 — Antuérpia, 30 de Maio de 1640) foi um pintor flamengo inserido no contexto do Barroco

Agosto

De um simples olhar
Uma atração
De um pequeno gesto
Um desejo
Em um dia insólito
Nossas almas se encontraram
Deixando-nos em êxtase
Nossos corações se embalaram em puro frenesi
Agora
No mais íntimo do nosso ego
Emana uma explosão de sentimentos
Acalentando o nosso desejo de sermos
Eternamente um do outro

terça-feira, 26 de maio de 2009

Georges Pierre Seurat nasceu em 2 de dezembro de 1859 em Paris e vestiu o paletó de madeira em 29 de março de 1891

Metade

A saudade é traiçoeira
Faz-me sofrer sem piedade
Enche o coração de angústia e dor
Causa uma indescritível ansiedade
Onde estará minha metade?
Que deixei naquela cidade
Com a alma cheia de encanto
Quero encontrar-te sem demora
Para ficarmos juntos
Em algum lugar no infinito
E quando o sol refletir
Seus raios sobre nós
Seremos duas nuvens calmas
Embriagadas de prazer
Assim poderemos dizer
Você é metade de mim
Eu sou metade de você

Edvard Munch (Løten, 12 de Dezembro de 1863 — Ekely, 23 de Janeiro de 1944)

Alguém em algum lugar

A noite cai lá fora
Aqui está frio
O silencio me atordoa
Sinto a tristeza impregnar meu ser
Acompanhada de uma saudade avassaladora
Que fazem fenecer todos os meus sentidos
Os sentimentos que existiam em mim expiraram
Pela dor causada com tua ausência
A mente sofre a perda
A dor é inefável
Há tempo sinto essa melancolia que emana
Das profundezas do meu ego
As lembranças serão eternas e indeléveis
Por isso calo em reverência de te amar

Amedeo Clemente Modigliani (Livorno, 12 de Julho de 1884 — Paris, 24 de Janeiro de 1920)foi um artista plástico e escultor italiano que viveu em Paris

A ESPERANÇA

A Flor do Sonho

A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim! ...
Milagre... fantasia... ou, talvez, sina...

Ó flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh'alma
E nunca, nunca mais eu me entendi...

Florbela Espanca

Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni nasceu em 6 de março de 1475 e morreu em Roma, em 18 de fevereiro de 1564

Solidão

à solidão



Nas incessantes voltas da vida
Encontrei você
Nos lentos passos do destino
Nossas almas se encontraram
Despertaste em mim o desejo da felicidade
Reacendeste a paixão outrora adormecida pelo tempo
Ressuscitaste meus sentidos fenecidos pela solidão
Devolveste-me a vida
As lembranças serão eternas e indeléveis
Os momentos ficarão guardados na memória
Agora...
Quero acalentar os sonhos
Idealizar o futuro
Fazer você feliz
Para que possamos ser
Uma só pessoa
Uma só alma
Um só destino

Henri-Émile-Benoît Matisse nasceu em Le Cateau, Picardia, em 31 de dezembro de 1869 e morreu em Nice, França, em 3 de novembro de 1954


Henri-Émile-Benoît Matisse foi um pintor, desenhista e escultor francês do Fauvismo, um movimento artístico nascido em Paris por volta de 1905.

A voz do mar

a Fernando Pessoa


A voz do mar sussurrou ao meu ouvido
Que perante a face do querido
Tornaria a dizer:
O que está em mim faz parte de você

A voz do mar sussurrou ao coração
Enchendo-o de emoção
Quando tornou a dizer:
O que está em mim faz parte de você

A voz do mar sussurrou sem nenhum espanto
Para que todos ouvissem o canto
Que o amor a obrigou a fazer:
O que está em mim faz parte de você

August Macke (Meschede, 3 de janeiro de 1887 - Perthes-lès-Hurlus, Marne, 26 de setembro de 1914)

Saudade

à minha avó Altina (in memorian)


Vivo a esperar-te ansiosamente
Sonho a cada dia com a tua chegada
Anseio por um simples olhar teu
O destino levou-te para longe
Um lugar onde esperas por mim
As horas parecem não passar
O tempo é sórdido
A distância é fútil
Os obstáculos são ineficazes
A dor é inefável
A paz está ausente
Minha alma é invadida
Por uma saudade avassaladora
O meu “eu” clama por ti
Espero pelo nosso encontro
Como recompensa do meu penar
Assim...
Reconstruir meu coração
Dilacerado pela tua ausência

Roy Fox Lichtenstein nasceu em 27 de outubro de 1923, em Nova York e morreu em 29 de setembro de 1997

Ontem

Ontem o rouxinol posou em minha janela
Cantando murmúrios de tristeza
São contundentes as mazelas

Caminho pela madrugada cega
Procurando a face que me compõe
Na escuridão que ela trafega

O espelho reverbera minha sombra
O rosto marcado pelo tempo
Resquícios de uma vida sem honra

Os fantasmas riem de mim
E vai-se egresso pelo esgoto
O que ontem fui! Em fim...

oulouse-Lautrec nasceu em 1864, em Albi e envelopou em no castelo de Malromé, Gironde, França, em 9 de setembro de 1901

OS DESENCONTROS

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca

Gustav Klimt nasceu em Baumgarten, perto de Viena, em 1862 e bateu a cassulêta em 6 de fevereiro de 1918 de apoplexia.

As pontes de Madison

à alguém em algum lugar


Primeiro dia: o encontro
Os olhos pareciam duas chamas incandescentes
A emoção invadira o ser

Segundo dia: o amor
A vida enchia-se de motivações
Os destinos fundiam-se em um só

Terceiro dia: a despedida
O despertar do sonho
A distância o afastara das Pontes de Madison

Paul Klee (18 de dezembro de 1879 – 29 de junho de 1940) foi um pintor suíço de nacionalidade alemã.

Partida

O vento sopra desesperadamente
Levando consigo as folhas secas
Que são expulsas pelas árvores...
As árvores não as amam mais
Elas vão para longe
O mundo dos esquecidos
Um lugar sombrio
As trevas não as deixam ressuscitar
A vitalidade fôra efêmera
Os colibris choram em silêncio
A falta é perceptível
As folhas secas se foram
Deixando apenas
O vazio
Deixando de viver

Wassily Kandinsky Rússia (16 de Dezembro de 1866 – 13 de Dezembro de 1944)

A Faca

A faca fere a ferida
Pelo tempo adormecida
Que sangra sem cessar

Pensamentos esdrúxulos povoam meu ser
Destruindo meu viver
Marcado pelos olhos vingativos do destino

Faço a escansão dos sentimentos
Através da catarse da alma: lamento
A faca fere a ferida

Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón (Coyoacán, México, em 6 de julho de 1907 - Coyoacán, 13 de julho de 1954)

Epitáfio

a Renato Russo


A vida fôra um sopro
Utópica
Angústia insuportável permeava o ser
A alma ferida pelo arrivismo humano
Libertara-se do casulo
É a transitoriedade do ser
A morte fôra uma constante
Não sou mais eu
Habito outro mundo
Lá, a poesia é necessária
O poetar é instigante
Todos são poetas

Edward Hopper (Nyack, 22 de julho de 1882—15 de maio de 1967) foi um pintor norte-americano mais lembrado por suas misteriosas representações realista

O Escorpião

O veneno ativo invade meu corpo
O sangue insiste em o reter
A dor me consome aos poucos
O escorpião feriu meu ser

Estou à margem do sofrer
A alma é tomada por uma angústia rouca
Encravada por sensações loucas
O fado compactua com as mentiras risonhas
Abrasando as verdades tristonhas
Sinto fenecer precocemente
É triste a dor que meu peito sente
Como posso viver?
O escorpião feriu meu ser

Francisco José de Goya y Lucientes (Fuendetodos, Saragoça, 30 de março de 1746 — Bordéus, França, 15 de abril de 1828)

Turbulência

A calma parece não existir
Os desejos ocultos teimam em florescer
Os pensamentos destruídos pela ignorância
Sumiram no vão da memória
Os dias são insólitos
Meu sangue ferve entre as veias dilatadas pelo ódio
Uma nuvem negra paira sobre mim
O destino se esconde por trás da penumbra
Uma turbulência invade minha mente
As estrelas não brilham mais
Continuo a vagar por caminhos restritos
Atormentado pelo fado
Ignorado pela sorte
Destruído pelo mal
Procuro incessantemente por algo que me reconstruirá:
A paz...

Eugène-Henri-Paul Gauguin (Paris, 7 de Junho de 1848 - Ilhas Marquesas, 8 de Maio de 1903)

Despedida

Da tristeza que vivo
Sofro o peso árduo da solidão
O fado é desprezível
Só restam-me lembranças
Os momentos guardados no baú das recordações feneceram
Vejo a vida pelo avesso
O ontem é parte do meu penar
O hoje amigo do meu sofrer
O amanhã chegará inescrupulosamente
Uma melancolia perene invade meu ser
O amor escondido nas faces sombrias do medo
Não mais ressurgirá
Você se foi...
Agora sou o nada preenchido do vazio
E a luz que outrora brilhava em mim não mais brilhará.

James Ensor nasceu em Ostende (Bélgica) em 1860 e faleceu na mesma cidade em 1949.

Desencontros

Estou em pleno abandono
Cercado por um silêncio que me atordoa
Envolvido por uma melancolia infinita
Invadido por uma angústia incessante
Mergulhado em profunda tristeza
Enganado pelo destino
Traído pela ilusão
Amaldiçoado pela vida
Tudo é efêmero
Vou ao encontro do inexistente
Continuo minha interminável busca ao ser inacessível
Tento libertar-me dessas correntes sórdidas
Que me prendem ao mundo dos esquecidos
E enfrentar o mal do século:
A solidão

Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo-Di Cavalcanti (RJ, 6 de setembro de 1897 — RJ, 26 de outubro de 1976

Corpo e Alma

a José Carlos Melo


Caminho entre pessoas desconhecidas
Ninguém me observa
Entre tanto calor humano
Sinto-me só
Completamente só
Olho minhas mãos enrugadas
Não tenho mais forças
Não tenho mais garra
Olho-me no espelho
Vejo apenas minha alma triste
Será que meu corpo não existe mais?
A dúvida estende-me a mão
E caminhamos juntos.
Agora entendo tudo,
Corpo e alma percorrem caminhos distintos
Sonhos opostos
E eu fico aqui
Nesta vida vazia
Esperando um reencontro.

A REALIDADE

Minha culpa

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? Um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo... um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro..
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...

Florbela Espanca

O Eu Sem Mim





a Gildo Rêgo


Através da janela negra
Ouço o barulho da chuva
Ela chama por mim
Chora comigo
Prisioneiro dos meus devaneios
Derramo lágrimas invisíveis
Que exalam a dor
O vento bate à janela
Vestido de cinza
Em busca de abrigo,
Em busca de solidão.
É março,
Começo a viver sem mim
As paredes mofadas
Sufocam a minha sombra
Sinto o ser anímico fugir pelos poros
Vejo-me virar a esquina do desamparo
Com um livro na mão
O livro dos esquecidos
E nunca,
Nunca mais eu me encontrei.

Eugène Delacroix, pintor francês, nasceu em Charenton-Saint-Maurice, em 26 de abril de 1798, e faleceu em Paris, no dia 13 de agosto de 1863

Tecitura da alma

à Mariana Ferraz


Incansável luta da vida
Tresloucado ser anímico
Expele por caminhos tortuosos
Amargas lembranças retidas na memória
Um parto lingüístico incomensurável
Maculado por inferências fatídicas.
Teço a alma
Como o poeta tece a palavra.
Distintas sensações enveredam pelo sangue frio
Por entre veias carcomidas
Marcas do tempo compõem meu rosto
Ressurjo da fuligem que me transformei
E no afã de um novo fado
Eu permaneço,
Eu permaneço.

Solidão

Um sentimento devastador povoa meu ser
Um sentimento sórdido quer me destruir
A mente é envolvida por uma nuvem negra
Carregada de pensamentos nocivos
O sangue torna-se um veneno ativo
A vida parece fugir das minhas mãos
Surge dentro de mim
Um desejo insano
De entregar-me inteiramente
A esse sentimento avassalador
Que quer me destruir:
A solidão

Marc Chagall (Vitebsk, Bielorrússia, 7 de julho de 1887 — Saint-Paul de Vence, França, 28 de março de 1985)

O Penar da Vida

Como algumas pessoas são tão importantes em um dia
E somem no outro?
O tempo,
Amigo da perfeição
Permiti-nos refletir sobre o mundo
E entender os mistérios que nos rodeiam.
Sou um ser hipócrita a procura de
Algum mal que possa dilacerar o meu corpo
E eximir a minha alma.
Os sentimentos são efêmeros
A vida foge-me das mãos
A liberdade evola-se em cinzas
E o que era, não sou mais.

Paul Cézanne nasceu em Aix-en-Provence em 19 de janeiro de 1839 e morreu na mesma cidade em 22 de outubro de 1906.

A Criança

O sinal fecha
A criança bate no vidro do carro
- Moço, dê-me um trocado!
O vidro reverbera seu estado anímico
Um olhar atravessado pelo desprezo
Carrega consigo o peso do mundo
O vazio invade seu estômago
O sofrimento vestido de preto abraça-a
Que vida imbróglia!
O trocado é negado
A desilusão ressurge como a fênix
O sinal abre
O semblante fatigado
As mãos vazias e trêmulas
Esperam o próximo sinal

Soneto de desfalecimento

Um oco na memória
A dor reverberada está ausente
O corpo agora dormente
Descrente da vitória

Uma lágrima fria
Esvai-se pela face intermitente
O coração ocluso sente
Ao desfalecimento irradia

Uma pausa no silêncio
O ser evola-se ao vento
Fragmentos de uma essência

A correnteza leva o reflexo pelo rio
O fado aplaude o tormento
Da alma em eminência

Théodore Géricault pintor francês, nasceu em Rouen, 1791 e faleceu em Paris, 1824.

A dor

A dor que agora sinto
Amargura minha alma
É dor, não minto
Que tira minha serena calma

O coração em silêncio chora
Sufoca a minha tristeza
Com o passar das horas
De nada tenho certeza

Preciso refazer-me
É dor, não minto
Ninguém vai dizer-me
A dor que agora sinto

Existência Metafórica

a Mário de Sá Carneiro


Algemas,
Correntes,
Sangue,
Preso a uma árvore,
O corpo repleto de flechas
Que ferem as minhas ilusões.
Estou preso a um mundo insano
Ao qual não pertenço
Luto incansavelmente contra a vida
Sinto morrer a cada segundo.
Minha existência é uma metáfora
Espero ofegante a vinda do desconhecido
Em uma carruagem de sombras
Guiada por um futuro incerto.
O gosto amargo do fim
Padece em minhas entranhas
E aqui permaneço, entre
Algemas,
Correntes, e
Sangue.

Théodore Géricault (1791-1824)

Palíndromo da Existência

à Norma Lima


Entre dias sombrios
Uma existência vazia
Anos pensando na vinda ao mundo
Queria representar...
Queria amar...
Queria ser eu...
Atuei em um mundo que não era o meu
Representei papéis infelizes
Apresentei pessoas que não estavam dentro de mim
Usei máscaras indefinidas
Percorri caminhos infinitos
Sofri dores alheias
Introspectivo observei:
De todos os eus que eu me constitui
Apenas o eu lírico permaneceu
Apenas ele sobreviverá

O fim

Tenebrosas sensações dominam a mente
Palavras ecoam dentro do ser
Frias, mordazes, sórdidas...
Um vazio intenso perpetua a vida
O rancor absorve a dor
A vida inóspita agride a existência
Surge um novo dia
A alma maculada pela ilusão
A tristeza assoma a esperança
O ser colérico sofre
É o início de uma sina
O fim de uma vida.